Archive for Maio, 2013

21 de Maio de 2013

Hipopótamos em Delagoa Bay

«Hipopótamos em Delagoa Bay (Abysmo, Março de 2013) foi escrito entre Agosto de 2010 e Fevereiro de 2011, no âmbito de uma Bolsa Criar Lusofonia 2010. O autor pôde deslocar-se a Moçambique, recolhendo in loco os cheiros, as histórias, os falares, organizados num pertinente glossário final, que povoam as 268 páginas do romance. Mas mais importante, pôde tomar o pulso a um país com o qual os portugueses mantêm uma relação histórica complexa. Entre as fotografias iniciais, de Jorge Aguiar Oliveira, e a citação derradeira de José Mário Branco, Carlos Alberto Machado (n. 1954) desbrava-nos o caminho da presença portuguesa em Moçambique desde os tempos da conquista à pós-independência. As fotografias de Jorge Aguiar Oliveira reproduzem uma paisagem que o tom da prosa intensifica, mostram-nos ruínas, destroços, resquícios de uma presença humana e animal entretanto transformada em lixo. Há nelas um reflexo que o título da obra induz, clarificado nas páginas finais quando dois protagonistas desta história dialogam:

Ainda há hipopótamos na baía? –
não, não, fugiram –
como nós, por «entre os torpes, fumegantes destroços do império» –
hipopótamos em delagoa bay_webEntre aspas, versos de Rui Knopfli (n. 1932 – m. 1997), poeta nascido em Moçambique mas com um inegável sentimento de expatriação. Ao longo do livro, são várias as evocações de personalidades históricas, «figuras, factos e entidades», posteriormente elencadas, numa perspectiva que a citação final pedida de empréstimo a José Mário Branco sintetiza: «Houve aqui alguém que se enganou». Carlos Alberto Machado organiza o romance em partes relativamente breves, encimadas por títulos entre parêntesis retos onde vamos antevendo o percurso do apelido Quaresma nas terras de Moçambique. O tom é bastante crítico e, de certo modo, elegíaco. Logo no início, a cidade de «Maputo que já foi Lourenço Marques» é-nos introduzida através do «cheiro violento expulso de um contentor de lixo esventrado por “famélicos da terra”» (p. 15). Mas o que torna o retrato verdadeiramente nauseabundo não são as imagens dos destroços, não é a degradação e a ruína que enformam a paisagem, nem tanto a degeneração de um nome, Quaresma, desde a chegada dos portugueses a África até ao abandono, depois da independência. O que torna o retrato nauseabundo é a percepção da hipocrisia e do logro que a palavra Revolução encerra, com as suas principais chagas, o medo e o ódio, desveladas pela guerra, pela exploração, pela maldade. Os heróis e os mártires que a toponímia procura imortalizar são tratados com distância pelo autor, o qual vagueia pelas ruas buscando nas sombras a razão de ser de um nome: «Uma pátria é um caixote cheio de nomes. Vermes que nunca morrem. Alimentam-se uns aos outros» (p. 29). Uma pátria também é um caixote cheio de expatriados, um lugar onde a chacina pontua a história e a riqueza de uns poucos se constrói sobre a miséria dos povos. Daí que haja no conceito de Revolução uma ambivalência irresolúvel, dois rostos numa mesma face, por assim dizer, para um nome que se farta de desenhar cicatrizes na esperança. A família com raízes alentejanas que o romance acompanha em terras de Moçambique, numa escrita onde se misturam géneros mas não se perde o fio à meada, permite-nos quebrar a moldura ao retrato e deixar a paisagem expandir-se, alcançando, desse modo, uma panorâmica ampliada, porventura menos sectária, sobre os deves e haveres da relação entre os dois povos que, afinal, se revelam um só como uma só é toda a humanidade. Temos ali gente que partiu de Portugal para o ultramar, outra que nasceu já em território africano e nunca pisou a terra do Portugal europeu, outra que se viu obrigada, por contingências diversas, a emigrar de cá para lá, de lá para cá, gente parida e crescida numa duplicidade identitária sem solução. O desenraizamento é a consequência última que a Revolução não resolve, um desenraizamento íntimo e profundo que pouco terá que ver com o desenho artificial das fronteiras num mapa, mas tudo tem que ver com as fronteiras delineadas na consciência dos homens. O desencanto que ressoa em Hipopótamos em Delagoa Bay é lúcido, é o desencanto dos desenganados, das vítimas do jogo político e do abandono a que são votados os povos, tratados como lixo pelo poder que arquitecta as ruínas e as quedas dos impérios. Melhor fora que continuássemos a poder ver hipopótamos na baía, sem nome nem ansiedade, sem medo nem feridas por sarar. Isso sim, seria verdadeiramente revolucionário.»
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13 de Maio de 2013

Boa companhia no DN

DN_13Maio2013_WEB

11 de Maio de 2013

Joana Emídio Marques com Manucure

Capa Rosalina_REV11. A Poesia antes e depois do poema

Os escritores e ainda mais os poetas são ressuscitadores de palavras enterradas ou espectrais, em plena metamorfose com as coisas que designam. Não é fácil termos a chave de um real que se desenrola ante os nossos olhos e ainda menos de um real que se transfigura à medida que o procuramos descodificar.

Mas é preciso descodificar? É preciso encontrar a chave para abrir todas as portas, abrir todas as tumbas, decifrar todos os enigmas, espreitar para dentro de todos os corpos? Já não resta em nós qualquer ponta de fé no que não tem explicação, no que escapa à lógica, à ordem racional de uma frase. Perdemos a fé no inteligível como algo capaz de nos habitar, nos acolher, nos consolar ou até… nos redimir?

Não, não creio que seja preciso decifrar o quotidiano, as almas e muito menos a poesia. Por isso não vou tentar escalpelizar os poemas da Rosalina. Não vou psicanalizá-los, nem lhe vou impor uma leitura como (adoram) fazer os ‘especialistas’. Só vale a pena encontrar uma chave se ela abrir um novo alçapão no mistério e não a sua decifração.

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