Archive for Julho, 2014

27 de Julho de 2014

Imagens de Boca Aberta

Letras no Forte (40)Imagens da sessão de apresentação de “Boca Aberta”, de Paulo Ramalho, o novo livro de poesia editado pela Companhia das Ilhas: foi na noite desta Sexta-Feira, 25 de Julho, no Forte de São Brás, Vila do Porto, ilha de Santa Maria.
Letras no Forte (39)A apresentação foi feita pelo poeta Daniel Gonçalves. O evento integrou uma performance de poesia, música e vídeo, com poemas ditos pelo autor e por Margarida Rosa, Nádia Pereira e José Amaral. A música esteve a cargo de Henrique Simões e Pepe Brix.

Letras no Forte (22)Letras no Forte (11)Letras no Forte (6)

 

 

20 de Julho de 2014

Feiras do Livro

Feiras livro pico e faial verao 14

20 de Julho de 2014

O pequeno Hamlet

Luís Quintais

Canto_Onde (2006)

O Tomás, o meu filho, brinca na velha ponte abandonada junto à casa onde habito agora. Gosto muito deste filho cheio de consequentes silêncios, reservas que lhe vêm do desamparo da infância – de toda a infância – mas que nele se sublinham como se um veio nocturno se acercasse das coisas que interroga. A mim tudo se me esquece quando olho este filho que espanca com um ferro o ferro da ponte. Observando-o na desatenção que o guarda assim no fotograma da memória, interpelo-o: «E leste O príncipe da Dinamarca?», e ele responde-me seco, mortalmente evasivo: «Não é O príncipe da Dinamarca, é O cavaleiro da Dinamarca», e volta a espancar, rebarbativo, o ferro.

Canto onde, Lisboa, Cotovia, 2006, p. 47.

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17 de Julho de 2014

Boca Aberta em Santa Maria

convite boca aberta sta maria

11 de Julho de 2014

Onde comprar os livros da Companhia das Ilhas

A Companhia das Ilhas é uma editora independente.

Os seus livros são distribuídos sem intermediários para livrarias, papelarias, museus e outros locais onde o livro tem lugar.

Aqui, pode consultar os locais de venda.

Se não encontrar num desses locais o livro que pretende, pode solicitar que nos encomendem o que deseja (ou realizar a encomenda directamente para nós, através da loja online.

Obrigada.

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11 de Julho de 2014

Novo livro de Henrique Fialho

Capa_Henrique_Fialho_CallCenter_REV2Call Center, de Henrique Manuel Bento Fialho

colecção azulcobalto 021

ISBN: 978-989-8592-47-7

1ª Edição: Junho de 2014

Ilustração da contra-capa: Bárbara Fonseca

64 páginas, brochado, 11×15 cm

PVP: 9 euros

Call Center é o confessionário onde os paradoxos e as ambiguidades da sociedade de consumo encalham, libertando-se sob a forma prestidigitada do conto. O absurdo surge como solução possível para contradições insanáveis, vidas sem rumo, situações mais ou menos verosímeis que nos fazem crer ser inútil procurar outro sentido para a vida que não seja o de uma desconfiança permanente sobre o doméstico, a normalidade, o lógico. Nesta recolha de pequenas histórias, o narrador escuta personagens reclusas de um mundo burocrático.

« Ponto assente: vamos morrer. A questão é quando e como. Na verdade, o como não chega a ser questão. Podemos morrer de morte súbita, de morte lenta, de acidente, assassinados, podemos pôr termo à vida. Que importa? A questão essencial é quando vamos morrer. Se esta dúvida nunca atormentou o leitor, ponha os olhos em Adalberto Pirralha. Morreria para saber quando seria o seu momento fatal. Todos os dias e tardes e noites na dúvida: quando irei morrer? De tanto cogitar sobre o tema, acabou congeminando negócio. É no que dá quando pensamos muito. Adalberto montou tenda na Feira Popular, garantindo adivinhar o último dia de quem estivesse interessado em sabê-lo. Magotes de curiosos, uns incrédulos, outros temerários, outros ainda desesperados, acorreram aos dotes do adivinho. Adalberto olhava o freguês nos olhos e dizia-lhe: vai morrer no dia tantos de tal. Depois, anotada a data, ia de encontro ao cliente no dia tal de tantos e matava-o. »

  

Henrique-Fialho_pressHenrique Manuel Bento Fialho. Rio Maior (1974). Vive em Caldas da Rainha.

Livros publicados:

Entre o dia e a noite há sempre um sol que se põe (ed. do autor, 2000)

Antologia do Esquecimento (ed. do autor, 2003)

Estórias Domésticas & Outros Problemas (OVNI, 2006)

O Meu Cinzeiro Azul (Canto Escuro, 2007)

Estranhas Criaturas (Deriva, 2010)

A Dança das Feridas (ed. do autor, 2011)

Rogil (Volta d’Mar, 2012)

Suicidas (Deriva, 2013)

Participação e inclusão em várias revistas e antologias.

 

companhia das ilhas  |  últimos títulos publicados

Tiago Rodrigues, Peça romântica para um teatro fechado Alexandre Borges, O boato. Introdução ao pessimismo Manuel Fernando Gonçalves, A matriz e o canto oposto Valério Romão, Facas José Ricardo Nunes, ConfissõesGez Walsh/Helder Moura Pereira, A borbulha no rabo. Poemas terríveis para meninos terríveis Helder Gomes Cancela, O exercício da violência. A arte enquanto tempo Luís Campião, O menino da burra Jorge Aguiar Oliveira, Ranço Nuno Dempster, Na luz inclinada Fátima Maldonado, Lava de espera Cristina Brito, A viagem seguinte Marta Freitas, Eis o Homem Henrique Manuel Bento Fialho, Call Center Paulo Ramalho, Boca aberta 

11 de Julho de 2014

Novo livro de Paulo Ramalho

Capa_Paulo_Ramalho_Boca_Aberta_REV2

Boca Aberta, de Paulo Ramalho

colecção azulcobalto 022

1ª edição: Julho de 2014

ISBN: 978-989-8592-48-4

64 páginas, brochado, 11×15 cm

PVP: 9 euros

Um poeta que deve palavras ao mar abre a boca para saldar a sua conta. No vaivém das marés, as ondas arrastam também o lamento do mundo para dentro dos versos.

 mergulha então por dentro de ti

no mar é onde se erguem os barcos com

suas proas femininas seus dorsos

esquivos no mar se convocam os ventos

alguém chama por ti no silêncio

ondas incham e desincham velas

cantam a canção do desejo oculto

entre as palavras só falta ao corpo

um mastro um rosto um poema

uma virgula húmida um leme

para rasgar o mar uma língua

para lamber o sal que há nas coxas

 

Paulo-Ramalho PBPaulo Ramalho (1960)

É antropólogo e vive na ilha de Santa Maria, Açores.

Obras publicadas:

O Crescer do Silêncio (Fora do Texto, 1992)

Ofício Imperfeito (A Mar Arte Editora, 1994)

Histórias do Reino Distante (A Mar Arte Editora, 1996)

Exorcismo dos Anjos (A Mar Arte Editora, 1997)

As Duas Sombras (Íman Edições, 2003 – Bolsa de Criação Literária – IPLLB)

Ilha Entre Linhas (Novo Imbondeiro, 2008 – Bolsa Criar Lusofonia – CNC)

 

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Tiago Rodrigues, Peça romântica para um teatro fechado Alexandre Borges, O boato. Introdução ao pessimismo Manuel Fernando Gonçalves, A matriz e o canto oposto Valério Romão, Facas José Ricardo Nunes, ConfissõesGez Walsh/Helder Moura Pereira, A borbulha no rabo. Poemas terríveis para meninos terríveis Helder Gomes Cancela, O exercício da violência. A arte enquanto tempo Luís Campião, O menino da burra Jorge Aguiar Oliveira, Ranço Nuno Dempster, Na luz inclinada Fátima Maldonado, Lava de espera Cristina Brito, A viagem seguinte Marta Freitas, Eis o Homem Henrique Manuel Bento Fialho, Call Center Paulo Ramalho, Boca aberta 

3 de Julho de 2014

Henrique Fialho sobre NA LUZ INCLINADA

NA LUZ INCLINADA

Capa_Dempster_Luz_inclinadaAs quatro partes que compõem Na Luz Inclinada (Companhia das Ilhas, Março de 2014) remetem para as estações do ano, começando cada uma delas com um poema em prosa ao mesmo tempo introdutório e sintetizador do tom geral dos poemas decorrentes. Esta escolha é reveladora de uma necessidade de organização que talvez se perdesse dado o carácter autónomo de cada um dos poemas, sendo que, neste caso, eles se ligam pela substância e não por uma intenção prévia de desenvolvimento temático. Na realidade, esta recolha de trinta e seis poemas reenvia-nos para os temas predilectos de Nuno Dempster (n. 1944). Quem conheça os seus livros anteriores, por certo não ficará insensível à coerência e à objectividade discursiva de uma poesia que começou a ser publicada tardiamente (2008) mas vai já em oito apreciáveis volumes. Quem desconheça os livros anteriores do autor, tem aqui uma excelente oportunidade para entrar em contacto com alguns dos seus melhores momentos.

A Primavera de Nuno Dempster respeita, em certa medida, a tradição: é tempo de fertilidade e de êxtase natural. Por outro lado, a exultação da natureza apela a uma suspensão do pensamento e, por consequência, a uma concentração no sentir que acaba por encalhar nas dúvidas e nos anseios do pensamento. Daí que à interrogação final do poema Tílias antes do solstício — «Se a poesia se cala acerca / dos sinais de verão, / porque haviam as tílias de existir?» (p. 14) —, os primeiros versos de Sucedâneos respondam com crueza: «Esta náusea, este / viver sozinho contra o que me cerca / e contra uma poesia só imaginada» (p. 15). Respeitando a tradição, esta Primavera de Nuno Dempster é, igualmente, devoradora do imaginário idílico que a poesia consagrou à sua estação. Poemas como Invocação aos hesitantes e Antibucólica, ou a espécie de lamento doméstico implícito em Anúncio, estão entre os melhores do poeta, porque rejeitam um rendilhado primaveril de passarinhos cantarolantes e corolas florescentes preferindo cotejar esse momento da criação com a morte que toda a vida pressagia: «O sol não nasce em cada dia? Nasce. / O que é que um morto tem na boca? / Um tijolo amassado com o seu próprio barro. / Indecifrável? Passe. Não tem nada escrito / e a todos cabe o seu conforto» (p. 16).

Magníficos versos, estes onde a vida e a morte se interligam com uma naturalidade que a poesia autêntica não deixa iludir. Importa sublinhar, porém, que a náusea e a solidão testemunhadas em alguns versos não exibem posturas estéticas vazias de conteúdo, são fruto de uma experiência de vida, de uma maturidade onde os afectos se afirmam também pela sua ausência, onde o eros se manifesta em estado onírico e a realidade, pelo contrário, sublinha o declínio de que a passagem das estações é apenas o ritmo marcado pelo tempo (esse grande maestro). Deste modo, o Verão é, logo a abrir, tempo de férias e de incêndios, reminiscência da guerra na passagem de um helicóptero; o Outono avoluma a noção do declínio, introduz o sentimento de finitude e a sensação de exílio que a ausência e a perda do outro confere; o frio do Inverno recorre à memória, refugia-se numa segunda pessoa cuja proximidade é a das memórias passadas, recorre a retratos e a recortes paisagísticos, vivenciais, onde a busca de consolo parece constantemente estorvada por uma insatisfação idiossincrática e, sobretudo, pela consciência interna do Tempo na «lama idealmente branca» (p. 51).

Note-se, a título de exemplo, como o poema Instalação, da terceira parte, sintetiza com notável poupança imagética este pathos tatuado pela transitoriedade:

Instalação

Eu tinha suspeitado, o restaurante,

as casas conhecidas.

Uma vaga ameaça rodeava-me

naquele outono, a força de gravidade

que impele ao suicídio, entenda-se

a que enevoa e arroja em direcção

ao lugar onde irá ficar hirto

aquele que viveu em mim.

Alguém, quase um rapaz, abriu-me a porta.

A meio do jantar, contei-lhe:

«Andei por estes sítios,

bebi do vosso vinho, conheci

a rainha das vossas castas

e outras coisas da terra,

a poda, o milho, a rega,

as vacas que iam à ordenha no crepúsculo,

o fumo das lareiras

flutuava em estratos no ar de Outubro

e cheirava a castanhas no borralho.»

«Andou então por cá?»

Não respondi e logo perguntei:

«Conhece o Jorge, o António, a Mariana?»

«O Jorge era o meu pai, morreu,

e morreu o meu tio António,

a Mariana vive, quase cega.»

Uma névoa afundou-me

no tempo que deixara

de ser medido há muito.

Tudo estava parado, e iam surgindo

Estátuas de amargura.

Ainda perguntei: «E o seu tio Alberto?»

«Ah, esse vive, pois.» Parecia-me alegre,

e confessei: «Eu era amigo dele,

e um dia foi-se.»

«Mas está aí. Vou chamá-lo, se quiser.»

Não, não queria.

Perguntou-me quem eu era.

Não respondi, não ira responder-lhe,

não sou nenhum romeiro,

o Romeiro, aliás, nunca existiu,

não podia existir, tonitruante.

Carreguei as estátuas à saída

e trouxe-as para casa,

e no fim do poema

a instalação tornou ao restaurante,

mas sobrevive, oculta, na memória.

Talvez ficasse bem uma referência à agilidade elegíaca de um diálogo aparentemente circunstancial, mas o poeta transferiu essa circunstancialidade para o poema. Esta transferência, que aponta, talvez, para o carácter essencialmente biográfico de muita desta poesia, pode iludir pelo artifício técnico, mas não deixa ilusões quanto à capacidade que Nuno Dempster mais uma vez revela de, indo buscar matéria à memória, interpelar-nos a nós como também ele é interpelado pela «vida solitária» escondida por detrás dos livros. A isto chama-se autenticidade, que não é o mesmo que dizer confessionalidade ou mesmo verdade. Se não é tudo, é muito. É quanto me basta.

Henrique Manuel Bento Fialho – Antologia do Esquecimento (29 de Junho de 2014)