O singular universo literário de Valério Romão

Histórias de uma crueza desapiedada que vêm mostrar o singular universo literário de Valério Romão

Capa_Valerio_Romao_REV3Dividido em três partes, o mais recente livro de Valério Romão (n. 1974), junta histórias perturbantes sob um denominador comum: facas. Usando diferentes registos narrativos, o autor explora, de maneira assertiva, as entranhas secretas do que se esconde por detrás de vidas aparentemente normais. Ao escrever, Romão como que oferece espelhos ao que “não tem reflexo”, ilumina escaninhos escuros, percorre os intrincados labirintos da mente, com o fio da navalha rasga a cortina do que está escondido, e sem contemplações apresenta tudo ao leitor. Em Facas, o mais importante não é o que as personagens são, ou como se comportam, mas aquilo que, por uma razão ou por outra, não as deixaram ser, e que as transformou de maneira irremediável, que as colocou a caminho de um beco que elas presumem sem saída. Nestas histórias curtas, o que o autor descreve é a parte final do percurso que as leva ao embate, à confrontação com a impossibilidade. A citação que se segue poderia quase funcionar como epígrafe de todas elas: “Eu não queria ser talhante. Nunca quis. Há em mim um fermento de artista que anseia por algo mais do que fatiar um boi ao gosto do freguês, há em mim a alavanca de um desejo que pede para conformar matéria-prima em nacos de estatuária viva.”

A história que abre o livro, Facas na Solidão, é o exemplo perfeito deste mecanismo de dissecação que deixa tudo à mostra. Num cenário de miséria económica, física e moral, com o Tejo na janela onde passam marujos e naus “cheias de pimenta da Índia”, um homem (que perdeu as pernas na Guerra do Ultramar) conta o desamor de um filho. Entre próteses e garrafas de vinho, vai desfilando uma longa agonia feita de ressentimento e de solidão, de palavras que ficaram por dizer, de gestos antigos que nunca deixaram de ser apenas vontades, de esboços de abraços nunca dados, de memórias de um filho bem sucedido na vida que não o visita há anos, que não telefona, mas que ele continua a amar mais do que tudo na vida. E de repente sabe que esse filho, afinal, tem um filho de quatro anos e que abusa dele sexualmente. É esta crueza desapiedada, inesperada como um soco, aliada a uma escrita muito segura e precisa, que transporta o leitor para o singular universo literário que Valério Romão tem vindo a construir. O estilo (sobretudo o ritmo narrativo) e o cenário deste primeiro conto, convocam de imediato a escrita de Lobo Antunes. “Mas não trazes os amigos a casa, tens vergonha de mim, do tamanho dos meus cornos, das garrafas de tinto barato que espalho da cozinha à sala de estar. Tens vergonha da tua mãe que irrompe casa dentro, descabelada, com um sorriso tontinho pintado por cima da boca pintada, a falar do Zé ou do Amadeu, a falar deles como se falasse de todo o nexo de possibilidades que a vida oferece.”

As restantes histórias, sobretudo o conjunto da segunda parte do livro, Sete pequenos canivetes, não fogem deste registo cru e sem piedade em que as personagens parecem querer mostrar-se “escrevendo-se com o seu próprio sangue”. A felicidade garantida por alguém que instiga outros a enfiar uma faca nas entranhas, um talhante que faz esculturas a partir de peças de carne, um homem que se vinga da sua fealdade em mulheres bonitas, uma faca que passa entre primogénitos de cada geração (talvez a história melhor conseguida), e um amnésico que quer presentear os que o rodeiam com um sorriso “que não é mais do que um rasgão na boca” feito com uma faca, são mais alguns dos temas deste pequeno e surpreendente livro de contos.

Presumimos que Facas foi escrito antes dos dois recentes romances de Valério Romão, Autismo e O da Joana(ambos publicados pela Abysmo em 2012 e 2013, respectivamente), pois estas histórias, apesar de terem um tema e um universo em comum, parecem ter funcionado como exercícios (sem qualquer sentido depreciativo) para o autor, como um “fazer a mão” à maneira dos cirurgiões: a primeira, claramente “loboantuniana”, até outras em que as vírgulas são substituídas por parágrafos (criando uma mancha de texto que não se afasta muito das páginas de Lobo Antunes), passando por aquelas que deixam já entrever o estilo dos romances que publicou.

Crítica suplemento Ípsilon do jornal Público, por José Riço Direitinho, Sexta-Feira 6 de Dezembro de 2013

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