Luís Osório e O Boato, de Alexandre Borges

Um dia que quase parece de uma outra vida, há mais de dez anos, três universitários apresentaram-me um projecto de televisão. Creio que era sobre o conflito de gerações, o que não me aqueceu ou arrefeceu – porém, a conversa que deveria acabar em 15 minutos durou até hoje. Nasceu uma amizade com cada um deles: Miguel Romão, Nuno Costa Santos e Luís Filipe Borges.

Estava obcecado com uma ideia, um projecto de televisão onde coubessem todos os programas do mundo e que mudasse os canais pelo espectador. Ao fim de três frases percebi que fariam parte da equipa, tinham o rasgo e a convicção de que o mundo pode ser mudado. Daquele encontro, de que pouco ou nada esperava, nasceu uma amizade e um projecto a que demos o nome de Zapping. A eles se juntou, entre outros, Alexandre Borges, irmão mais novo do Luís que, açoriano de Angra do Heroísmo, acabara de aportar a Lisboa para iniciar o seu curso de Filosofia. É dele que vos quero contar.

Capa_AlexBorges_Rev1Não tanto por ter lançado um livro de aforismos (o boato – introdução ao pessimismo), mas por nesse pequeno livro ter conseguido ser o mesmo que, aos 19 anos, teorizava sobre a existência de Deus, o Amor ou Portugal. Acredito com plena convicção que vivemos várias vidas numa que dizem única, mas Alexandre, hoje com pouco mais de 30 anos, continua a defender que o «problema do movimento de rotação» é o de nos condenar à ideia de que «mesmo que não voltemos atrás, o mundo vai voltar a passar por nós». Ou que as «citações são o wonderbra dos intelectuais: com elas, até as ideias mais insignificantes parecem imensas». Ou que, no fundo, «tudo quanto um homem faz está dependente do olhar de uma mulher: metade das coisas, ele faz na esperança de que uma mulher esteja a ver; a outra metade esperando que nenhuma mulher o veja». Ou, finalmente, que «Portugal só tem duas hipóteses: ou aceita, de uma vez por todas, os portugueses tal como são, ou avança para uma acção de despejo».

Os anos passam. E, na passada segunda-feira, quando apresentava o livro do Alexandre, veio-me à cabeça uma ideia porventura menos ridícula do que desejaria. O seu pessimismo idealista conservara-o melhor do que aos amigos que, nos dias da juventude, foram gloriosamente optimistas, os que acreditaram que era possível mudar o mundo e os homens. Esses, onde naturalmente me incluí, envelheceram mais depressa, pelo menos mais depressa do que ele. Fez-me pensar.

O que dizer?

Que talvez viver muitos anos, morrer de velho, seja um património de duas espécies de gente: dos que renovam paixão pelo que fazem, sentem e são; e dos que sobrevivem por hábito. Não há outra forma. Porque se, porventura, for uma pessoa apaixonada que soçobrou à desilusão ou ao cansaço, ou se já sentiu nem que seja por um dia a volúpia de crer, acabará por se desintegrar mais rapidamente. Por isso arrisco dizer-lhe: se lhe for impossível acreditar em projectos e novas esperanças, torne o hábito na sua profissão. Habitue-se. Sem riscos, sem fugas, sem paixões, revoluções, tentações. Porque o hábito conserva. Congela-nos numa espécie de vida.

É ilustrativo, reconheço. Porque há pessimistas (os não idealistas) a quem a ausência de acreditar provoca mortes precoces, mortes em vida. É como habituarmo-nos a viver sem crianças por perto, quando damos por ela morremos antes de tempo, morremos mesmo antes da morte chegar. Não é uma questão de tristeza, pode até partir sorridente com as suas memórias e fantasmas – o peso do passado é um salto fundo, um salto para águas profundas, sem luz ou futuro. As crianças são o antídoto, o único verdadeiramente poderoso. São uma bóia cheia de futuro, vida onde existia sombra, luz onde se pressentia o fim das contas. Sem crianças todas as casas velhas parecem assombradas.

Queria ter escrito sobre outras coisas, ficará para a semana. Culpa do Alexandre Borges, o mais coerente entre os meus – pessimista crente, céptico romântico, alguém para quem Deus ou o Amor se vai encontrar numa esquina desde que jamais sejamos nós a esperar pelo encontro.

No lançamento do seu livro, editado por uma jovem editora açoriana (Companhia das Ilhas) o restaurante Alfândega estava cheio de pessoas e aplausos. Mais do que merecidos – um dia os que ali estiveram poderão dizer que ali estiveram, estou certo que sim, Alexandre.

Mas sabes uma coisa, amigo? Durante o jantar ao ouvir a Ana, dona do lugar, falar da morte de um filho, ao escutá-la com o olhar, única maneira de perceber um alfabeto que não é feito de palavras, não pude deixar de me sentir sozinho estando tão acompanhado. Acontece-me sempre, tu sabes.

Como explicar isto? Há pessoas que passam pela nossa vida e nos amam. Por vezes nas suas maneiras originais de amar, por vezes de um modo suicidário, obcecado e até despojado. Mas não é possível amarmos quem escolhermos, ou por quem fomos escolhidos, como um pai ou uma mãe ama quem de si saiu. Aí, nesse país onde as palavras não servem para explicar ou entender, amamos de um outro modo, amamos sem que a palavra amor sirva para definir o que sentimos. É outra coisa, outra palavra por inventar. Nunca mais ninguém me olhou como a mãe, as tias e avós – sentado à mesa, pelo canto do olho, percebia que me acompanhavam no que comia, no prazer que sentia, na hipótese de poder não gostar de alguma coisa. Estamos por nossa conta quando à mesa, mesmo os que nos amam, já não estão vigilantes.

É isto, meus amigos, meu amigo. Deu-me para isto. Estou por minha conta e a isso chama-se viver. Não é?

Luís Osório, 1 de Outubro, 2013, semanário Sol

 

 

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