CONFISSÕES, de José Ricardo Nunes

Intitulando-se este livro Confissões, penso que nada melhor do que um poema para ilustrar as intenções do autor, compreendendo que quando alguém escreve poesia estará, quase sempre, a confessar-se:

ESMOLA

Versos,
em brasa,
como tostões à porta de uma igreja
iluminando as mãos
de um pobre.

Apesar das instâncias, mecanismos de validação e modas nem sempre reconhecerem valor onde ele de facto existe, o José Ricardo tem sido um escritor profícuo (entre a poesia, o ensaio e a ficção vai em 11 títulos).

Tal como no resto da sua obra, nestas Confissões não encontramos a formalização pretensiosa, nem o fogo-de-artifício de palavras. Antes, pequenas subtilezas que nos convidam a várias releituras e em que nos vamos apercebendo das cambiantes, vozes que aparentando simplicidade nos levam ao âmago das suas e nossas questões existenciais: porque se arrependem, quem são estes homens e estas mulheres, conhecemo-los, o que é a morte, onde está deus?

ricardo-nunes-confissoes_01A polifonia do livro envolve um padre, quase sempre subentendido, que é uma espécie de oráculo e simultaneamente um espelho; deus e a morte unem-se numa intenção, numa dialéctica em que se confundem para ficar a própria voz do autor. O leitor é inapelavelmente convidado a assumir o papel de padre. Somos impelidos a julgar, a absolver ou a condenar as personagens, cujos pecados nem sempre são claros. Que castigo, que penitência dar a estes arrependidos? Como perdoar-lhes as nossas próprias ambivalências?

Encontramos ao longo das nove histórias que compõem o livro um universo de regras próprias onde gravitam dois mendigos agradecidos e arrependidos; um homem que respeita a sua esposa e ama a sua amante; uma mulher em fim de vida, amargurada, revoltada mesmo, indecisa entre o que sente e a falta de razões para o que sente; um escritor e as suas páginas em branco entre outras ausências; uma mulher num luto revoltado que interroga deus sobre os seus propósitos pedindo-lhe de volta a sua vida imaginada; uma mulher que perante o absurdo se imagina outras, dando sentido pontual à vida; um homem em fuga perante a inevitabilidade da morte; uma empregada doméstica, ex-freira ex-prostituta que foge de deus para estar com deus. Homens e mulheres em constante metamorfose, como Paulo na estrada de Damasco.

As personagens buscam uma redenção urgente ou a indulgência do padre a quem se confessam (o leitor). Justificam as suas acções por vezes de forma desesperada e interrogam retoricamente o interlocutor mudo acerca do significado da arbitrariedade que os rodeia. Este significado pode residir em deus, tão presente quanto ausente, para finalmente poderem encontrar algo que os cumpra. Uma fuga metafísica perante o absurdo real. Não chegamos a testemunhar nenhuma epifania (ao contrário de Paulo), o leitor fica desamparado com as personagens nas mãos sem saber o que lhes poderá dizer.

Entre deus e a morte, os pecados e omissões, os significados e ironias através de palavras e frases esculpidas em pormenor, é fácil encontrarmos momentos de puro prazer estético que este livro proporciona.

Apresentação da obra por José Ribeiro, Caldas da Rainha, Museu do Hospital e das Caldas, antigo Palácio Real, 26 de Setembro de 2013.

 

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