PEÇA ROMÂNTICA PARA UM TEATRO FECHADO

PEÇA ROMÂNTICA PARA UM TEATRO FECHADO, DE TIAGO RODRIGUES

O Tiago Rodrigues é, para mim, um dos artistas mais inspiradores da cena nacional. Autor, actor, encenador, produtor, professor (e tenho a certeza que me faltarão aqui alguns or-es – não incluí guionista nem argumentista para não me estragar a rima), Tiago Rodrigues tem construído um dos mais ricos e variegados percursos entre os criadores da sua geração. Para além de profícuo fazedor de teatro na estrutura que fundou – o Mundo Perfeito – ou em colaborações com outros (entre os quais serão de destacar os reputados S.T.A.N.), Rodrigues está associado a dois dos mais interessantes projectos de em torno da criação dramatúrgica: o Projecto Urgências (2004-2007) que, depois de três edições, organizadas pelo Mundo perfeito com as Produções Fictícias e o Teatro Municipal Maria Matos, deixou trinta e três novas peças curtas – e veio depois a desembocar no Projecto Estúdios, que consiste na realização de uma série de oficinas de trabalho em tempo concentrado e que dão origem a uma nova criação (donde resultaram os espectáculos A festa, 2008; Sempre, Pedro procura Inês e Bobby Sands vai morrer Tatcher assassina, em 2009).

Capa Tiago-Rodrigues-Peça-Rev1Sobre a escrita do Tiago, fértil e rica, habituei-me a entendê-la algures entre os labirintos borgesianos ou a poética da coincidência de Paul Auster. Devedor de literatura, no teatro de Tiago Rodrigues é possível encontrar a mesma a obsessão pelas letras, os mesmos labirintos formais, a mesma auto-referencialidade que se encontram em Auster ou Borges (ou Calvino, ou Eco…). Com efeito, eram estas as características mais estruturantes de trabalhos como Yesterday’s man, Se uma janela se abrisse, Mundo Maravilha ou Entrelinhas, em particular. Mas em rigor, creio que todo o corpus criativo do Tiago gira em torno destas paragens. Por vezes o fôlego conceptual é mais determinante (como no delicioso O que se leva desta vida ou em Se uma janela se abrisse); outras vezes é o fôlego político o mais marcante (como em Coro dos maus alunos, Tristeza e alegria na vida das girafas, Três dedos abaixo do joelho). Mas, em todos os trabalhos, o mesmo encantamento pelo acto de criar, a mesma crença que o acto de representação é uma coisa festiva, a mesma responsabilização assumida perante o público, a mesma confiança na função transformadora do teatro, a mesma assinatura estética. A dramaturgia de Tiago Rodrigues dialoga tão agilmente com a história do teatro como com as notícias dos jornais; é uma escrita que busca um pathos nas coisas mais banais: numa conversa afinada, numa coincidência feliz, num trocadilho certeiro, numa referência que amplifique significados… – ah, e é, claro, uma escrita que tem muita graça.

Peça romântica para um teatro fechado estreou a 19 de Abril de 2013, no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro, resultante de um processo criativo de duas semanas com oito actores brasileiros provenientes das companhias Pequena Orquestra, Cia Teatro Independente, Clube Paradoxo e Cia dos Outros, no âmbito do projecto Companhia Provisória, e escrito em colaboração com Alessandra Colasanti, Carolina Bianchi, Joana Lerner, Júlia Macini, Keli Freitas, Magda Bizarro, Michel Blois, Pedro H. Monteiro, Rodrigo Nogueira, Tomás Decina e Vinicius Arneiro.

Trata-se de um divertimento na boa tradição da comédie de coulisses (as comédias de bastidores). Num teatro fechado – fechado tanto literal como metaforicamente – um ex-casal (Clara e Fernando) tentam “fechar” a sua relação e remeter os restos da sua relação há muito terminada para o (inequivocamente borgesiano) Museu Universal (Mundial/Nacional/Internacional/Municipal/Intergalático) do Esquecimento. Ela quer dizer-lhe que está grávida e remeter definitivamente as memórias da sua relação ao esquecimento. Ele – bom, ele nem por isso. Mas nisto, as personagens como que se fragmentam e criam ecos falantes de si próprios: e, assim, surgirão uns “segundos”, “terceiros” e “quartos” Clara e Fernando.

A pequena comédia assume então dimensões pirandelianas, tornando-se num hábil jogo teatral, bem-humorado, despretensioso e fluido. E quando estamos já entretidos com o jogo, tentando jogá-lo bem (e até, quem sabe, ganhar ao escritor), apercebemo-nos que estamos dentro da mesma moldura temática do grosso da obra de Tiago Rodrigues – e que estamos mais uma vez a discutir a natureza do acto de criar; e quando pensávamos que falávamos de relações, falávamos também de teatro – essa coisa também ela permanentemente encaminhada para as galerias do Museu Universal do Esquecimento.

Publicar esta peça na colecção azulcobalto | teatro, é, antes de mais, um orgulho, mas também uma tímida tentativa de resgatar ao Museu do Esquecimento um texto que foi pensado para uma situação teatral muito particular e que, por isso mesmo, foi programado para se esgotar rapidamente “no fogo-de-artifício da representação”. Publicar um texto como esta Peça romântica para um teatro fechado é amplificar as possibilidades de namoro do texto e permitir-lhe novos casamentos. É poder pensar que este texto pode voltar a abrir teatros.

 

Rui Pina Coelho

Apresentação de Peça romântica para um teatro fechado, de Tiago Rodrigues

Lisboa, Teatro Meridional, 22 de Setembro de 2013

 

 

 

 

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