«O Fardo» lido (contra mundum)

Capa Madalena C Campos_REV2«Para quem tenha, ao longo do último ano, acompanhado o blogue  les cahiers de la mariée, este pequeno livro não surgirá como uma surpresa. Para quem desconheça o blogue, O Fardo do Homem Branco, publicado na Companhia das Ilhas (1) pode constituir um choque: pela agressividade verbal, pelo vocabulário e o imaginário explicitamente sexuais, pelo cinismo seco e sem exterior.
«Desobediência
Sem como nem quem, o pai ou a mãe.
Nem o que faziam, nem o que disseram.
Era apenas ela.
As mãos nas mamas,
as coxas abertas,
a cona colada à cona de alguém.
Uma coisa mais suja.» 
É difícil ler este livro sem o integrar no todo dos textos que foram sendo publicados no blogue. Madalena de Castro Campos (Lisboa, 1974, segundo a badana deste livro — 1984, segundo a página da editora) apresenta-nos uma estratégia de escrita que passa claramente pela construção de uma personagem. Uma personagem que evita a autodefinição, preferindo produzir-se a partir do olhar que lança sobre os outros e sobre o mundo.
Ao contrário de estratégias criativas ao nível da poesia que agem pela construção de personagens focais ou de sujeitos de enunciação (como é o caso modelar da construção dos heterónimos em Pessoa), não há aqui qualquer tentativa de congruência. Ao invés de procurar a coerência do sujeito, a “persona” multiplica-se pelo olhar, vário e contraditório, que lança sobre os outros.
Não há autodefinição, há produção de diferença. Não se encontra aqui a primeira pessoa, do singular ou do plural, que pudesse suportar uma identidade. Declarados ou implícitos o “ela”, “ele”, “elas”, “eles”, constituem ao mesmo tempo o sujeito e a máscara na qual a voz da autora se produz.
«O poeta
Castrava-o antes de o deixar sair.
Uns milímetros por dia, quando acordava a tempo.
A lima das unhas, a faca dos frangos,
a lâmina de se rapar por baixo,
qualquer coisa servia.
Ele não protestava, ainda era apenas uma questão de fé:
com o tempo talvez chegasse a ser pago
A violência verbal, explícita e assumida, é aqui parte de um projecto de escrita que, num mesmo gesto, pretende chocar e seduzir. Uma sedução provocadora, a um tempo descarada e púdica, de quem mostra o que tem porque não parece acreditar que, de facto, o possua. Que o possua, ou que se possua a si mesma o suficiente.
A narratividade de muitos dos poemas faz supor que em algum momento, em alguns textos, seja possível identificar o “ela” da personagem com a própria autora. Que a alguns dos fragmentos narrativos possa subjazer uma experiência pessoal é uma decorrência da tese segundo a qual todos os textos literários são de algum modo autobiográficos. Mas é também, e sobretudo, uma exigência implícita do um olhar (o do leitor contemporâneo) que longamente se habituou a procurar o autor por detrás da poesia, a procurar a subjetividade por detrás da exterioridade das palavras.
É nesta falta de subjectividade que se realiza, de facto, o cinismo da escrita. Um texto que se dá na mesma proporção em que se retira. A existir um suporte biográfico ou simplesmente experiencial por detrás destes poemas, ele escapa-nos pela multiplicação de vestígios.
É evidente, ao nível da escrita, uma vontade de chocar que passa pela desconstrução da oposição entre a vítima e o agressor. Se se nota uma frequente e implícita empatia pela vítima, tal não é só por si garantia de qualquer hierarquia de valores, nem sequer o da pertença de género como instrumento de representação. O olhar da autora (agressora e vítima) é ambíguo na construção da própria identidade de género. A ambivalência da relação entre o feminino e o masculino (oposição inconciliável, mas dependência inultrapassável) é espelho e agente de uma ambivalência maior que se desenha entre duas instâncias do poder: o poder da força e o poder da vítima. Ambos, vítima e opressor, presos de uma mesma e quase convulsa obrigação de obediência. Obediência aos imperativos do poder, do desejo, ou da fome: os seus ou os dos outros.
«Império
Onde ele dizia descoberta, ela ouvia jugo. Onde
ele dizia civilização, ela ouvia barbárie.
Pilhagem, extorsão, estupro,
escravatura.
Terra queimada, a princípio,
lavrada, depois, com os ossos dos mortos.
Elas, mais dóceis, vomitavam do ventre
a fé e o medo, misturados no sangue
dos filhos mestiços.
Eles, mais rudes, sabiam que contrapor a força à força
talvez permitisse uma imitação da revolta.
Mas as coisas nunca coincidem com as palavras,

e raramente a carne com o punhal

A autoridade (moral, legal, histórica, etc.) parece constituir aqui o negativo diante do qual a escrita se realiza. Por isso, esta violência latente ou explícita.
Contada a preto e branco, a história tenderia a identificar o masculino com o opressor e o feminino com a vítima. Tal não é garantido. Oprimido e opressor, pudor e impudor, misturam-se, duplicam-se e substituem-se recíproca e arbitrariamente. Ninguém se salva. E não será só uma questão de cinismo.»
1. Madalena de Castro Campos, O Fardo do Homem Branco, Companhia das Ilhas, 2013, (44 p.).
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