Francisco Costa Jr sobre Manuel Tomás

Maroiço, de Manuel Tomás

Um livro é sempre uma viagem pessoal e íntima, a do autor e a do leitor. Por isso, o livro depois de lido, deixa de ser propriedade exclusiva do seu criador, para se reinventar através do olhar e da visão do mundo de quem o lê. Este livro é, neste contexto de apropriação, o “meu” livro, porque lido por mim.

Maroiço, o livro de poesia de Manuel Tomás, é uma espécie de radiografia da alma do autor e da sua relação, profunda e orgânica, com a ilha do Pico. No livro, como numa redoma de saudade que nunca foi quebrada, as impressões do autor guardam toda a pureza original. Intemporal e mítica, a paisagem geográfica é, nos seus sentidos, uma eterna miragem.

O autor, que bebeu sempre neste chão, estabelece com a ilha um abraço apertado e medular, integrando o universal no cerne desta paisagem austera.

É na cartilha da natureza que busca o fermento, assumindo-se, mesmo, como a encarnação humana destes lajidos e biscoitos descarnados. A ilha surge como reduto ideal, como fortaleza a que se abriga e onde se sente inexpugnável todos os dias.

A ruralidade, na poesia de Manuel Tomás, não é boa por ser tosca, mas por ser autêntica e nunca perder a significação. Como se tudo que é espontâneo e verdadeiro estivesse mergulhado na terra.

O autor convoca e evoca a ilha como espaço fundacional e mítico. Útero e umbigo do mundo, a ilha é um lugar aberto e fundo através do qual o autor se abre à universalidade. O local, sem a estreiteza do provinciano, é o ponto de fuga para pensar o longe. Mesmo quando os ramos e as folhas se dispersam por outras geografias, a raíz está no chão da ilha, placenta e líquido amniótico do autor.

Mas se a terra é o oxigénio que insufla o corpo da poesia, o mar é o sangue que lhe dá vida. O mar “terreal e anímico” de Nemésio, sublime e ontológico de Eduardo Lourenço, essencial e português de Pessoa e de tantos outros…

Há na poesia de Manuel Tomás uma espécie de nostalgia sobre a memória da ilha. Através de uma arqueologia de sentimentos, revela-nos um apego desmedido, quase irracional, ao Pico, a “sua ilha maior”. É nesse alambique que destila a vida; é nesse lagar que prensa o bolo que lhe serve de inventiva para olhar o longe.

Mas se a terra e o mar são a força motriz da poética de Manuel Tomás neste livro, os barcos assumem nele um papel relevante. Os barcos da ilha são vidas, sonhos e utopias que se desfazem no abandono do esquecimento e no silêncio ensurdecedor de uma mudez comprometida.

Lembrando e denunciando, o autor exorciza a alma dos nossos barcos, dos barcos da nossa ilha: a Velas, a Calheta, a Espalamaca, o Rival, o Amigo do Povo, o Picaroto, entre tantos, tantos outros.

Há na escrita de Manuel Tomás uma irreverência inconformada, uma insubmissão corajosa, um comprometimento social. Sem cangas, nem cilhas, sem freios, nem algemas, sem escolas, nem cânones. Enxuta, quase seca, em que a polpa se sobrepõe à casca. Uma escrita muito própria e personalizada, quase desconcertante. Telúrica, espessa de humanidade, alagada de amor e de saudade por uma ilha que tomou conta dos sentidos do autor. Uma espécie de atração fatal, de espaço de redenção e de eterno reencontro.

A ilha da pedra, feita paisagem mundial, é-nos revelada, nas suas contradições e paradoxos, através dos seus semblantes e rumores, da sua luz e das suas cores, das suas formas e cheiros e dos seus frutos da terra. Obrigado Manuel Tomás por este pequeno grande livro de amor pelo Pico.

Não há verdadeiro amor sem paixão. Esta é uma verdadeira declaração de amor apaixonado por esta “ilha maior”, que é nossa da casca ao sabugo.

Capa_Maroiço_M_Tomas_REV3 [ Manuel Francisco Costa Jr., texto de apresentação do livro, em 9 de Março de 2013, Salão Nobre do Município da Madalena do Pico ]

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