Os livros de Nuno Costa Santos

BANALIDADE E BELEZA

A maneira como o Nuno Costa Santos edita a sua poesia parece-me semelhante à maneira como edito a minha música. Quando estamos juntos vai-me passando mais um pequeno livro dele que ainda não tinha, como lhe vou passando os meus discos. As tiragens costumam ser modestas, como o melhor do do it yourself, ao mesmo tempo que o cuidado gráfico é exemplar. O ritmo do Nuno é tão frequente quanto subterrâneo, passando por baixo das agendas editoriais. Quando nos oferece um dos seus livros já não nos surpreende por mais um volume do qual não nos tínhamos apercebido porque já estamos habituados a esse trânsito primeiramente como um ciclo de amizade.
Ontem trouxe para casa “Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme”. O título revela logo aquela mistura sensibilíssima de banalidade e beleza que o Nuno tem escolhido para si (banalidade é aqui não o desinteressante mas um jogo de aparências que do corriqueiro saca o improvável). A beleza funciona não como um contraponto mas como uma conclusão. O equilíbrio do Nuno é solitário (uma palavra muito dele) e caleidoscópico (veja-se a quantidade de registos diferentes que amealha entre tv, rádio, escrita, teatro, net e outros). É também isto que faz do Nuno um nome que parece evidente (os mais atentos sabem que já o viram em algum lugar) mas ao mesmo tempo escondido (na sua semi-omnipresença o Nuno é muito difícil de categorizar).
Vinha pelas ruas da Lapa a ler o livro e um cidadão de fala inglesa avisou-me para ter cuidado com o que pisava. O poema que lia era “Podia ser o fim do medo” e tem uma parte que diz:

E se eu vos falar num sofrimento mais longo e
distendido, não do horror instantâneo das obsessões e
fantasmas, ao sofrimento que merece ser vivido por ser
o negativo do deslumbre da vida, essa vida que não é
não só o prazer que vendemos a nós próprios como uma
competência de agência premiada no estrangeiro.

E se eu vos falar do fim do medo, do regresso aos
pequenos gestos, aos poemas inacabados, ao amor por
aprofundar, ao futebol da infância, ao dicionário das
primeiras palavras, ao canto dos pássaros na cidade.

É muito bonito.

Capa_Nuno-Costa-Santos_As vezes e um insecto_bx

[ Tiago Cavaco, aqui ]

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s