Patraquim sobre Pinto de Sá

OS FILHOS DE MUSSA MBIKI

Nada se recomenda neste nóvel escritor: «abandonou muito jovem os estudos e vagueou durante sete anos pela Europa, exercendo as mais variadas profissões». Sete anos de pastor a servir Raquel, urbana bela. As do amor infinito enquanto dura, como queria Vinicius. E a ilustrar-se, num on the road cosmopolita, encalhado na Europa, ancorado em Moçambique. Acusado de vagabundagem, o poeta russo Joseph Brosdky foi preso e depois expulso da União Soviética. José Pinto de Sá vagueou e vagueia pelos admiráveis caminhos de si e do mundo a que se sente ligado. É um felino. Ao menor sinal de vida pulsante, agónica que seja, José Pinto de Sá está presente, envolve-se. Embora tudo já pareça fora de moda, o autor de Os Filhos de Mussa Mbiki é um existencialista que sabe, a espaços, precaver-se e reflectir na «arrière boutique» que Montaigne aconselhava. Mas não acha, citando a famosa frase, que o inferno sejam os outros. E a sua náusea deriva de um imperativo ético e de dignidade, sem maniqueísmos de nenhuma espécie. Por isso escreve, escreveu sempre.

Jose_Pinto_de_Sa_foto_Ivone_Ralha_pqIrremediavelmente beirense, de Moçambique, onde nasceu em 1948, ainda havia o Hotel Savoy e a Ponta Geia se deixava lamber, tal como hoje, pelo mar Índico, José Pinto de Sá apresenta-se, pois, em livro. Já fez tudo: jornalismo, crítica, teatro, batiques, comentário político, tradução, fotonovela e o mais que foi preciso. Os Filhos de Mussa Mbiki é uma pequena parte do muito que deve ter na gaveta, do que poderia recolher nos jornais, do que a memória e a sensibilidade guardam em potência de escrita. Dizia o escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro que, quando mostrou o exemplar do primeiro livro que publicara, ao austero pai, este o desdenhou quase com sarcasmo. De tão magro de lombada não dava para o pôr de pé. Despeitado, João Ubaldo vingou-se com o celebrado Viva o Povo Brasileiro, um catatau de mais de seiscentas páginas.

Sobre pesos e lombadas ficamos conversados. A literatura não se mede assim. Nem de nenhum modo. Lê-se, frui-se, acrescentando-lhe o leitor o que o autor ou sugere ou nem se apercebe que estava lá. A Acompanhadora, de Nina Berbérova, livrinho breve, é imenso. O conto Emma Zunz, de Jorge Luís Borges, é de uma mestria absoluta, cinco a seis páginas que deram, inclusive, roteiro de cinema.

Os Filhos de Mussa Mbiki reúne cinco narrativas. A selecção é criteriosa: vai da guerra colonial – «Chama-se Eusébio e Acabou-se» –, até ao glorioso pós-independência que a todos nos foi dado viver.

Falei em jovem escritor, com cúmplice ironia. Porque estas estórias, estes inserts no real quotidiano, esta crueza dorida, são de alguém em plena maturidade.

Recentíssimo como país, Moçambique tem o facto/fado – invoco João Pedro Grabato Dias e Frey Johannes Garabatus –  de ter de conviver com os seus heróis. Viver sempre também cansa, dizia o poeta português José Gomes Ferreira. Conviver com tanto herói, idem. Ele é avenidas, estátuas, nomes de escolas, tutti quanti. Mas não generalizemos. A saga fundacional é necessária e há heróis, obviamente. A épica é que se estraçalhou na fragmentação que a modernidade e a tão propalada pós-modernidade instauraram.

Fiel ao aforismo de Brecht, o tal do rio que se diz ser violento mas ninguém dizer violentas as margens que o comprimem, José Pinto de Sá escolhe as figuras anónimas, o anjo caído que é o zé-ninguém. Exceptuando o conto «Chama-se Eusébio e Acabou-se», que remete para relato cruento, com uma finta terrível que defrauda o leitor – a criança morre, cumprindo-se a “força das coisas” –, os outros textos situam-se no pós-independência.

Como dimensão metonímica, o autor procede a uma operação de bisturi e rasga a pele em suspenso da Utopia e do Messianismo para nos pôr em situação, expondo-as, as entranhas do real. Socorrendo-me daquele é considerado um dos mais belos contos escritos em qualquer língua – A Terceira Margem do Rio, de João Guimarães Rosa –, José Pinto de Sá escolhe a terceira margem. Precisando melhor, o narrador, cujo, não deve ser confundido com o autor, embora estes mistérios entre biografia e projecção em universos ficcionais venham merecendo a mais desvairada bibliografia. Melville escreveria o Moby Dick se não tivesse sido baleeiro? Mas deixemos o pendor especulativo e respondamos como Pessoa, que sinta quem lê.

Quase short stories, a técnica narrativa ao serviço de situações-limite, trazendo do new journalism a frase incisiva e certeira que lhe interessa, apostado numa panóptica expurgada de antinomias, mordaz, como no conto «Fica para Amanhã», onde, num desenlace inesperado é todo um mundo que desaba com a vigilância e a delação que autofagicamente castiga e se castiga, tudo começando à mesa de um bar, na amena cavaqueira de dois cidadãos que desabafam sobre a vidinha e a política – quo vadis, homem novo? – José Pinto de Sá tem o swing do conto. Em «Depois da Paz», narrador e narratário – outra vez um bar – tecem laços de cumplicidade onde avulta uma espécie de abjeccionismo sublimado anulando toda a narrativa oficial sobre a libertação da mulher. «Asas de Corvo» expõe-nos a pura mecânica do desejo sem lamentos à Catulo, «manda Amor», etc – nem inquietações à George Bataille. Liturgia que se cumpre sem linguagem, num erotismo cru, desesperado, funcional, enquanto a violência e a morte anónima, urbana, nocturna, ronda os corpos desesperados no outro lado da janela, no quintal.

Capa_Jose-Pinto-Sa_Os filhos de mussa mbikiSem preocupações de nenhuma estratégia de legitimação identitária – ele há tantas – o autor de Os Filhos de Mussa Mbiki vem desarrumar algumas convenções sobre a narrativa que se escreve em Moçambique. Não cabe em escolas, não as quer; não sofre da famosa «angústia da influência». O que José Pinto de Sá nos propõe é um outro caminho. Os Schoolars mais diligentes quererão arrumá-lo em alguma prateleira teórico-identitária. Pressinto que o autor se está nas tintas. É favor ler e pedir outro livro. Com lombada, de preferência.

 Luís Carlos Patraquim, apresentação da obra, Évora, Livraria Dom Pepe, 2 de Março de 2013.

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4 Responses to “Patraquim sobre Pinto de Sá”

  1. Tive o privilégio de conhecer pessoalmente o autor desta obra, enquanto professora do seu filho mais novo, o Zézinho. Ao ler este prefácio, fiquei com muita curiosidade em ler os contos que constituem este livro. Parabéns e votos de muitos sucessos!

  2. lindo! 🙂 Ainda nao li mas estou curiosissima!

  3. eu mocambicano, nao li o livro. Mas pela construtiva critica, quero.
    Ler,imaginar, talvez um dia poder ver!!? Vou acreditar, parabens JOSE PINTO DE SA

    Filipito

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