Natália Correia – poemas (011)

MÁTRIA 11

Os sonhos vão erguer-se sobre as patas traseiras

e as árvores gritar o seu direito ao voto

não mais o iceberg de sanguessugas

flutuando no peito do soldado

nem crocodilos sob os pés do homem

como perseguir-se em trífide num sonho

com sua asma de combóio atrasado

 

Não mais pasta amarela de tirano na boca

não mais bílis não mais veneno

no copo da carícia preferida

não mais nascermos para corda de roupa

íntimas peças de morte penduradas

a todo o comprimento de puxarmos

a carga ínsone de uma alheia vida

 

Não mais fraque de pedra de corpos espiados

Vai ser o tempo de florirem as letras

no livro das mulheres perfeitamente nuas

não mais ignorantes como sábios

os sonhos vão soltar seus pombos de água pura

o rio de Anaíta a molhar-nos os lábios

 

Vai ser o dia de despejo dos ilustres

a quarta-feira de cinza dos solenes

o Maio da Matrona vai ser a Páscoa dos amantes

que vão trepar a música das árvores

até que o céu se banhe na nascente dos seus lustres

até que um cuco saia do relógio das veias

anunciando que a bilha do teu sono se quebra

e outras vez te espalhas poeira de diamantes

ó sol que te levantas com braçadas de ovelhas

Anaíta ó vontade de sermos semelhantes

 

Vai ser no ano dois mil soluços do teu filho

ó Madre de algodão na sferidas da esfera

Primavera de naves à velocidade riso

Vai ser o estado Anaíta da matéria

As maçãs de Orestes. Lisboa. Dom Quixote. 1970.

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