90 anos de Agustina

Dois inéditos de Agustina Bessa-Luís assinalam 90º aniversário da escritora

«A publicação de dois inéditos de Agustina Bessa-Luís, que inauguram uma nova coleção da editora Babel exclusivamente dedicada a obras da autora, são hoje publicados, no dia em que a escritora completa 90 anos.»

O afastamento da vida pública por motivos de doença tem causado à escritora "uma certa morte ainda em vida", como disse uma vez o Nobel José Saramago, que muito a admirava.«O afastamento da vida pública por motivos de doença tem causado à escritora “uma certa morte ainda em vida”, como disse uma vez o Nobel José Saramago, que muito a admirava.

Imagem: Guilherme Venâncio/ Lusa

Distinguida com o Prémio Camões 2004 e com vários prémios literários nacionais e internacionais, Agustina Bessa-Luís é uma das mais importantes figuras da novelística portuguesa, autora de uma vasta obra, distribuída pelo romance, conto, ensaio, teatro e biografia. A escritora, retirada da vida pública por motivos de saúde, completa hoje 90 anos.

Para assinalar a data, a coleção Contemplações editará pequenos textos da escritora, sobretudo de natureza ensaística, e começará por “Kafkiana”, um livro que reúne quatro textos com reflexões de natureza literária sobre a situação do homem kafkiano face ao mundo e a ele próprio, disse à Lusa a editora.

“Quem, como eu, por razões de estudo, se interessou vivamente por um autor (trata-se de Franz Kafka, em que não pretendo doutorar-me, mas de que tirei a licenciatura) durante muito tempo, não pode evitar a sua sombra. Pelo que os meus artigos muitas vezes rodeiam os seus pensamentos, confiam nas suas palavras com esse abandono carinhoso que dedicamos a quem nos deu o pão do ensino”, escreveu Agustina.

O segundo volume da coleção é um conto assinado e datado de 09 de junho 1951, intitulado “Cividade”, que recebeu nesse mesmo ano o primeiro prémio de ficção nos Jogos Florais do Minho, aos quais concorreu com o nome do marido, Alberto de Oliveira Luís.

“Neste conto, Agustina chama um tempo e um cenário de infância, de quando passava férias na Quinta de Cavaleiros, perto da Póvoa de Varzim. Este imaginário, tão especial para a autora, vem a ser retomado em textos infantis, e mais tarde no romance ‘Antes do Degelo’”, indicou a Babel.

“O mundo rural já em ruínas, e construído sobre ruínas de uma ocupação romana, e das sucessivas épocas que lhe foram sucedendo, é o espaço estreito e fechado onde Rita cresce, donde sai para casar, e onde regressa, velha, viúva, e tranquila com o destino que se cumpriu, sem nunca ter deixado os horizontes da aldeia de Corvos”, revela a editora.

A Guimarães, atual chancela da Babel, que publica desde 1954 as obras de Agustina, iniciou em 2008 a edição da Opera Omnia, uma nova coleção da obra da escritora nascida em Vila Meã, Amarante, a 15 de outubro de 1922, com capa dura e textos revistos, e da qual estão já nas livrarias 10 títulos, preparando-se também para publicar o 11.º, “Breviário do Brasil”.

Na nota editorial do livro, lê-se: “A redação de ‘Breviário do Brasil’ foi concluída na cidade do Porto, no dia 28 de Junho de 1989. […] Ao receber, no Brasil, o Prémio Camões [em 2004], Agustina Bessa-Luís reconhece-se ‘criada na memória do Brasil’”.

“Com efeito, o Brasil está, desde a infância, fortemente presente no seu espírito: ‘Era menina pequena e já conhecia de lés-a-lés a Rua do Ouvidor e as lojas com sobrado, e os armazéns com balcões de madeira clara; e debaixo deles dormia um rapazinho, amargo e contente de estar em cidade estranha’, escreveu.

“Agustina conheceu, pois, o Brasil ‘de maneira quotidiana, natural e familiar’, como conta noutro texto em que também recorda o pai: ‘Eu invejava-lhe [ao pai] a vida passada, invejava-lhe o Brasil que ele tinha nas veias como se fosse parente de sangue. Às vezes falava do Brasil urbano onde ele viveu vinte e cinco anos. E eu ouvia, com essa incredulidade dos que adivinham a experiência que nos foge pelos abismos do tempo’”, lê-se ainda na nota editorial.

Agustina Bessa-Luís, reconhecida pelo público ao publicar o romance “A Sibila”, em 1954, que lhe valeu o Prémio Delfim Guimarães e o Prémio Eça de Queirós, viu a sua obra traduzida em diversas línguas, vários dos seus romances adaptados ao cinema por Manoel de Oliveira.

Homenageada, ao longo da vida, em diversos países e universidades, e condecorada pelos Estados português e francês, encontra-se há muito afastada do olhar público pela família, por razões de doença indeterminada, o que lhe tem causado “uma certa morte ainda em vida”, como disse uma vez o Nobel José Saramago, que muito a admirava.»

(retirado daqui, com a devida vénia)

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