Natália Correia – poemas (009)

Mátria 9

Foi em Creta No Azul fêmea do Egeu

as naves embalavas ó sopro de Anaíta!

Tua pele esticada era o tambor da noite

cada homem era o dom de ouvir a tua cítara

Comovidas pulseiras tangias nos teus braços

piedosas avelâs escorriam dos teus cílios

aravam tua terra mamíferos afagos

cada homem era um príncipe no teu campo de lírios

Teu levantar de saias á resplendor de púbis!

o joelho agressivo  das espadas flectia

e  na face dos homens deixavas a penugem

das nuvens aniladas que nas ancas movias

Eras mansa eras f«dança e génio de balança

que as estações pesava      Fazias sol chovias

cada homem enchia com frutos o teu crânio

e na alma caíam as roupas que despias

Eras mãe eras virgem eras cabra na cama

o vento que as mulheres menstruadas faziam

eras tanta eras santa e a catedral de açúcar

que as pernas das amadas naturalmente abriam

Foi em Creta que as têmporas da Europa

premeditou no húmus do seu ventre dançante

Cada homem era a cauda torrencial do filho

bebida pela boca dourada do amante

As maçãs de Orestes. Lisboa. Dom Quixote. 1970.

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