Natália Correia – poemas (002)

Mátria 2

Entanto como dizer a pedra escuta

ilha a morrer de fome rodeada de pão

homem! quadrado da destruição

que o círculo de madressilva embrulha

Do redondo da incriada mama

o envolvimento de algodão escuta

o dolente arbusto que atravessa

tua paisagem diagonal de fuga

a limpidez da íris que peneira

a serradura feroz da tua pressa

Como dizer o dentro o centro escuta

o cálcio a letra a lã que recomeça

teu acre exangue de minguante lua

homem! Ó precipício de apeado

passageiro da mulher que continua

Mundo! mesa do céu bombardeado

onde da multidão boca nenhuma

saliva de carvão em cada uma

arrotas o bife mal passado

órfão que és por teus espinhos contas

as pétalas da mulher triangular

com que formavas a estrela de seis pontas

Como dizer o estar que é o lugar escuta

onde vão dar as tuas veias todas

onde a noite e o dia têm contactos sexuais

e começam as coisas a ser naturais

despidas no espelho dessas bodas

Como dizer o brando o branco escuta

o húmido alfabeto da novilha

a que estás preso pela raiz de um afago

Cada mulher é uma cascata de trevos.

Nessa risada arredondando o tempo

colhe um som         Por um trevo serás salvo

As maçãs de Orestes. Lisboa. Dom Quixote. 1970.

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