Inês Dias – poemas (001)

NOSTALGHIA

Ouvia-te falar e sentia

as chamas retomarem

as paredes do teu coração

de igreja abandonada.

O céu, nessa tarde,

era um leque de lantejoulas

ao rés do teu sorriso

e dos meus olhos encadeados.

Doía-me esse excesso de luz

que te fazia toda sombra,

o crepitar morno da pele

antes do incêncio consumado.

 

Sempre que dizias o seu nome,

riscavas outro fósforo –

ele avançava dentro de ti,

nas mãos uma vela prestes a cair.

Amo demasiado o fogo

para a suster. Prefiro

redesenhar as nossas cicatrizes,

ser depois a memória da pedra

fria em pleno Verão.

Resumo. A poesia em 2011 [antologia]. Lisboa. Documenta/FNAC. 2012.

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