Helder Moura Pereira – poemas (001)

VESTI UM VESTIDO BAILARINO

Vestia um vestido de bailarino quando, logo ao segundo dia,

trocando cêdês e livros de poesia, me declarou a sua amizade.

Passávamos tardes inteiras a discutir fantasmas, asmas,

histórias da infância e coisas da beleza grega e pós-moderna.

 

Dou graças por viver em tempos de correio electrónico, arrumo

tudo nas pastas e depois não há provas. Nunca mais se sentirá

o cheiro do fogo queimado, as folhas negras, o prazer do fósforo.

Num rápido gesto tudo para sempre apagado e a minha memória.

dura o tempo de uma tecla, nem de versos se vai lembrar.

 

Mas quando o amigo, enfim, cansado de eu não lhe ligar, decide

pôr tudo em pratos limpos, eu coro de vergonha porque

amizade para mim não tem de ser ir para a cama. Isto que toda a gente

sabe fora dos poemas faz tremer a minha mão pelo lado do vulgar.

 

Andaste por beja, braga, bordéus e alexandria a engatar marinheiros

e eu aqui, gostando de ti, com saudades de ti, mandando-te dinheiro.

Uma vez por outra ia também um poema, daqueles ambíguos

que tu nuncas percebias. Toma cuidado, não apanhes sida.

 

Quando recebi a notícia da tua morte vi-me culpado por não ser

da tua onda, meti-me no avião e, tal como tínhamos combinado,

vesti-te a rigor e pus-te brilhantina, um livro em branco e uma caneta.

Quem sabe se na morte não terei tempo para ser escritor.

Lágrima. Lisboa. Assírio & Alvim. 2002.

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