Mário T Cabral – poemas (001)

DIATÉSSARON

Que idade tenho ao aguentar a manga da camisa com os dedos fechados

Antes de atravessar a custo o túnel do casaco e ver surgir à luz refulgente

Os botões de punho do casamento de meu Pai

Ouro, prata e madrepérola no mais fino desenho antigo?

Que idade tinha aquele velhinho amassado a um canto na praça   

Parecia uma daquelas pombas que vêm morrer à beira do tanque do jardim

Poderia ser eu agora se eu tivesse os olhos assim azuis puros

Limpa-pingas para cá e para lá, limpa-pingas para cá e para lá…

— Ele não está a ver nada — garantiu a moça, ao registar as minhas compras:

— Primeiro, saltou para aqui, depois amassou-se onde o senhor o está vendo.

— Parece uma daquelas pombas que vêm morrer à beira do tanque do meu jardim.

— O senhor tem cada coisa! A mim parece-me uma criança. Não somos nada nesta vida.

Que idade tinha quando ele me ensinou este truque inolvidável no vestir?

Quantos anos leva o meu braço a atravessar o escuro da morte antes da ressurreição gloriosa?

Poderia estar a morrer agora, nada me garante que não esteja, não tenho feito outra coisa

De certa forma, como que nasço para trás, estou a ser críptico, com certeza.

Sim, meu Deus, meu Pai do Céu, só em Vós confio, vinde salvar-me.

— É uma passagem misteriosa — disse eu ao meu reflexo no espelho do quarto do casal:

— Quando Nosso Senhor, no Evangelho de São João, diz a Pedro:

“Quando eras novo, ias para onde querias; vai chegar o tempo de andares pela mão de outro.”

Talvez a vida seja como esta mão que atravessa a manga do casaco

E o velhinho estivesse a ver aquilo que eu estou a contemplar agora

Meu Pai no meu rosto e a minha mão no punho dele, eu muito criança

Fascinado e obediente, longe de saber que mergulhava dentro do Eterno

Coisa tão pouca abriu-me no cérebro uma cicatriz sagrada, um clarão divino

Ouro, prata e madrepérola no mais fino desenho antigo

Algo parecido a quando Nosso Senhor vier de novo à Terra e eu Lhe disser:

— Conheço-Te desde antes de ter nascido, meu amor, meu amor.

Algumas pombas moribundas pego nelas ao colo, acaricio-as enquanto reflicto:

— Que idade temos nós quando tudo fica claro, somos novos, somos velhos?

Assim, dentro do mais caseiro, se revela o que esperamos desde sempre mesmo sem saber

Procurando chaves que não são precisas para nada

Porque a porta se abre por si, quando menos se espera, em qualquer parte

Com a naturalidade das mulheres quando se lhes rebentam as águas.

Inédito (começado na Sé, entre Laudes e missa, Quinta-feira da primeira semana do Advento 2010. A cena do velhinho aconteceu ao almoço; acabado no Sábado, 16 de Janeiro, AD 2011).

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s