António Cabrita – poemas (001)

RECOMEÇAR

Costumava povoar os filmes alheios

com pássaros, rios, acácias vermelhas –

espantava-me que reagissem como um deus

que conta pelos dedos. Um dia acordei

sem provisões – até o luto precisa de irrigação

constante – e então parti com uma maleta

de palavras desconjuntadas. Palavras que clamam

por cura como andas por pés. Em Moçambique,

um turbilhão de abelhas desgarrado de colmeia,

vi o que convinha: pedras soltas, ariscas,

onde a víbora pode plantar raízes.

É lugar que mede a eficácia das palavras

pelo corte do soldador na chapa. A luz

de Lisboa – for exemple – sendo

mais brilhante, não é doméstica.

Esta ao fenecer, lembra um jacente

que habita connosco. Pode não ser

bonito mas é algo que se compartilha.

Russos é o que não falta. E pastores,

que repetem convictos “o sol nasceu”

antes de reclamar dízima, espórtula. Aqui,

pavões, até ver, nasceram afogados.

Recomeço a povoar os romances alheios

de pássaros, rios, acácias vermelhas –

volto a estar dentro do que me é exterior.

Piripiri Suit, seguido de Visions de L’Amen – Poemas da distância incomum. Maia. Edições Ver o Verso. 2006.

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