O tempo suspenso

Imperioso voltar ao museu, onde acaba de ser inaugurada mais uma exposição que recomendo completamente. Refiro-me a “Antologia Breve”, um conjunto de obras recentes de Urbano (1996-2010) expostas na sala Dacosta (13 de Abril-3 de Junho). No fim, direi porque é que me parece muito interessante que os dois pintores açorianos se tenham encontrado no mesmo espaço.

O suporte da maior parte das obras é o papel, o que está adequado à temática geral. Papel significa, também, jornais e papelão. Uma das peças mistura a tela, o gesso e a folha de prata (escolhida para publicitar o evento). Aliás, há um notório cuidado na experimentação, embora não se fique com a ideia de arte experimental, pois tudo aqui flui com naturalidade, sem exibicionismos, a lembrar, antes, a arte povera.

Bem vistas as coisas, o que sobressai é a aproximação encantada e silenciosa da matéria e pela matéria, algo muito próximo do trabalho feminino (atitude yin), como no caso da tela “No Princípio” (2000), onde um fio do tecido serve para construir a copa da árvore.

A paleta: sépias, castanhos, cinzas, brancos, muitos filtros brancos, que visam apanhar a luz; os amarelos são torrados, ocres, chegam ao dourado, em algumas grandes extensões; os azuis são sempre cinzas, os vermelhos são sempre sanguíneos, ferrugem – e outra vez o branco, como um véu, ou melhor, como as cores na memória.

É a vida na memória. Trata-se de uma pintura figurativa, que representa o real quase sempre de forma percetível – porém, nada acontece fora do sujeito, mas dentro, recordado, impressão que é dada pela paleta e pela ausência de “paisagens” ou “panos de fundo”; os elementos são destacados, como que recortados do resto, tal e qual como quando recordamos. Não se trata, pois, de uma pintura realista, como poderá supor-se, ao princípio; mas sim transcendente: transcendência do objeto no sujeito e do sujeito no objeto.

Só o essencial conta. E o que é o essencial? Os títulos das obras ajudam-nos, mas não era preciso: a vida, o tempo que passa, o ser do mundo que flui, o tempo suspenso, o instante que é captado fora do tempo, o encontro do exterior com o interior… Há muita poesia em tudo isto: um cão urina numa árvore, um rapaz sobe a uma árvore para apanhar os primeiros frutos, uma mulher vai ter um filho… “As Últimas Aves” (carvão sobre tela, 2006) é, quiçá, a obra mais poética, mas todas, no geral, são laudatórias.

Pintura da vida: algo vai brotar, algo está a germinar, algo está a ser gerado (a presença da morte é diminuta, e nunca há decadência e perversidade); pintura da paz, do silêncio, da felicidade – da beatitude. Isto mesmo pode comprovar-se, ainda mais, com o traço que, sendo leve, não é rápido e nervoso.

A súmula é o “Caderno de Veneza (fac-símile, 2004), que é de comprar. Trata-se do canhenho do artista quando nesta cidade italiana. É um luxo de humanismo, o clímax deste mundo que acabo de descrever; noutras peças fôramos convidados a seguir o processo criativo, que aqui faz lembrar quando somos convidados para comer na cozinha de outrem, na maior intimidade. Numa das páginas, há uma nota que passo a citar:

“Quando aqui esteve em 1881, Renoir escreveu uma carta a Madame Charpentier:

‘… Fiz um esboço do palácio dos Doges. Como se fosse a primeira vez que alguém fizesse isso!’ – 25-II-04”.

E Urbano desenha o palácio dos Doges. Nota-se o “trompe l’Oeuil”; recorde-se aquele fragmento de Heraclito onde se diz que os deuses também habitam na cozinha. É o seu palácio, mas não é o “seu” que interessa, nem a vez ser a primeira: é o início, sempre, na autenticidade.

Prometi que, no fim, dizia porque é que achei interessante visitar Urbano na sala Dacosta. Há muito de comum entre eles (estou a pensar no segundo Dacosta). A alma destes homens é a mesma. Que bom que é saber que são açorianos; chegaram ao limiar da Verdade que se expressa em Obra.

Mário T Cabral, Casa das Tramoias, Abril, AD 2012

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